quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

São Paulo: O Clube da Fé

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Por Amanda Borba.

“José e Antônio resolveram criar um clube e escolheram as cores e o nome da nova agremiação. E assim nasceu...” Peraí, pára tudo! Não, definitivamente a história do meu amado Tricolor Paulista não é tão simples como a da maioria dos clubes brasileiros. Sua narrativa é repleta de renascimentos, lendas e curiosidades.

“Está fundado nesta capital mais um grande clube de futebol”.

Assim, no dia 25 de janeiro de 1930, o jornal Estadão anunciou a criação do primeiro São Paulo Futebol Clube. Sim caros leitores, o primeiro.

Aliás, antes de qualquer coisa, é interessante notar que todos os grandes clubes da capital paulista nasceram para representar algum grupo da sociedade paulistana no início do século XX. O Corinthians apareceu para representar os trabalhadores e imigrantes pobres da região do Bom Retiro; o Palmeiras (que no princípio era Palestra Itália) surgiu para representar a colônia italiana; a Portuguesa de Desportos representava a colônia portuguesa; e o São Paulo, devido os seus antepassados, representava a elite paulistana “quatrocentona” (neologismo para nomear legatários legítimos ou supostos dos primeiros paulistas, ou seja, os bandeirantes ou mandachuvas coloniais).  Atualmente, essas representações não fazem mais nenhum sentido, já que a sociedade paulistana mudou completamente.



"Futebol no Patropi, sou mais é o Tricolor do Morumbi". Só o nariz do Juca Chaves nos salvará!

Bem, o Tricolor Paulista surgiu da fusão de dois times da época amadora do futebol brasileiro: o Club Athlético Paulistano e a Associação Athlética das Palmeiras. No início, o futebol no Brasil era um esporte elitista. O Paulistano, por exemplo, foi fundado por um grupo de jovens da oligarquia paulistana em 1900. Dois anos depois, em 1902, a A.A. das Palmeiras foi fundada pela elite tradicional formada por graduandos, bacharéis e doutores.

Para título de curiosidade, o alvirrubro Paulistano foi simplesmente o maior clube da era amadora, conquistando 11 títulos paulistas, incluindo um tetra campeonato (único time paulista a conquistar esta façanha). Além disso, o primeiro grande jogador do futebol brasileiro e o mais importante do amadorismo foi Arthur Friedenreich. Arthur era um mulato de olhos verdes e jogou entre 1909 e 1935. O racismo nos esportes só começaria a diminuir na década de 1930. Todavia, Friedenreich foi uma exceção por causa do sobrenome e da origem burguesa, herdados do pai, comerciante alemão.

No entanto, depois de muitos problemas, o departamento de futebol do Paulistano foi fechado e a A.A. das Palmeiras só tinha dívidas. Juntando a fome e a vontade de comer, jogadores e diretores da A.A. das Palmeiras se ligaram aos persistentes do Paulistano, antigo rival, com a intenção de criar um novo clube. De tal modo nasceu o São Paulo Futebol Clube. A assembleia de oficialização da fundação aconteceu no dia 27 de janeiro de 1930.



São Paulo Futebol Clube da Floresta. Time campeão de 1931.

O nome foi escolhido para homenagear o próprio estado e as cores eram uma combinação do vermelho e branco do Paulistano e do preto e branco da A.A. das Palmeiras, além de reproduzir as três cores da bandeira paulista.

Este primeiro SPFC é ainda conhecido como São Paulo da Floresta, pois se localizava na Chácara da Floresta, às margens do rio Tietê. Entre 1930 e 1935 o SPFC da Floresta conquistou um título paulista e quatro vice-campeonatos. Neste período, Arthur Friedenreich, o maior jogador brasileiro até então, marcou 68 gols com a camisa tricolor.

Mas graças às dívidas adquiridas por causa da nova sede social, o Trocadero, e de outras despesas, o SPFC da Floresta deixou de existir após a fusão com o Clube Regatas Tietê.

Mas a chama ainda estava acesa e como dizem os gaúchos “não está morto quem peleia”. Depois de muita mobilização, em 16 de dezembro de 1935 aconteceu o renascimento do maior clube deste país. Da mesma forma como o pássaro mitológico que se renova no fogo e que é símbolo de renascimento e da ressurreição, o SPFC surge como a fênix do futebol paulista e brasileiro.

Agora o "time da elite" não existe mais (embora este mito ainda persista). Quando o clube foi refundado em 1935, era um time extremamente pobre e a torcida, apesar de pequena, também era composta por trabalhadores. Portanto, o clube ressurgiu de forma humilde e aos trancos e barrancos foi tentando se firmar entre os maiores do esporte bretão.

Após o renascimento, sua primeira partida oficial aconteceu no dia 25 de janeiro de 1936 e a autorização aconteceu num receituário médico, entregue pelo secretário da educação ao tenente mineiro Porphyrio da Paz. Por este motivo o São Paulo, mesmo recriado em 16 de dezembro, celebra seu aniversário em 25 de janeiro.

Durante os primeiros anos, muitas fusões de outros clubes com o novo SPFC aconteceram. O clube caçula caminhava com dificuldade e os rivais mais velhos aproveitavam a oportunidade para tirar o sarro chamando os são paulinos de “pobretões metidos a bestas” e de “time pequeno”. Em 1937, o cronista esportivo Thomaz Mazzoni criou a alcunha mais simbólica e significativa da história do São Paulo:

“Recentemente surgiu o São Paulo FC Júnior, com as mesmas pretensões do antigo. Se o novo São Paulo veio ao mundo da bola sem os haveres, fama e prestígio dos seus antepassados trouxe a maior das riquezas: a fé no seu destino, o amor ao seu hoje. Somente a fé poderia levar o atual Tricolor a nascer como um clube varzeano qualquer e tornar-se logo uma agremiação no caminho reto do progresso do futebol superior. O Clube da Fé, como merece ser chamado o atual São Paulo FC, está se encarregando de ser grande e campeão.”

Daí pra frente muita coisa aconteceu. O filho caçula dos grandes times do Brasil firmou-se. Os são paulinos mais antigos se lembrarão do primeiro grande esquadrão tricolor da década de 1940 e de nomes que soavam como poesia: Rui, Bauer, Noronha, Sastre, Leônidas e Teixeirinha.




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Leônidas da Silva, o "diamante negro" (o chocalate da Lacta foi criado em homenagem a Leônidas). Ele foi o primeiro grande jogador brasileiro da Era Profissional, o primeiro negro a assumir a condição de astro de futebol e o divisor de águas da história do SPFC. Depois de Leônidas, o São Paulo nunca mais foi o mesmo. De fracasso virou sucesso. 


Outros citarão Canhoteiro, o mago dos dribles impossíveis e que serviu de inspiração para muitos cantores brasileiros, como Zeca Baleiro, Fagner e até mesmo Chico Buarque (que é tricolor carioca, mas que já declarou admiração e simpatia pelo tricolor paulista, graças a Canhoteiro). Outro grande jogador da década de 1950 foi o mestre Zizinho, o principal jogador brasileiro antes da Era Pelé no Santos.



"O Futebol", Chico Buarque. Para Mané, Didi, Pagão, Pelé e Canhoteiro.


"Canhoteiro", Zeca Baleiro e Fágner. Uma lenda esquecida até mesmo no museu do São Paulo Futebol Clube. 


Mas nem sempre “ser são paulino é uma grande moleza” como diria o cabeçudo do Milton Neves. Os tricolores amargaram anos difíceis em seu início e um jejum de 13 anos entre 1957 e 1970. O jejum tricolor coincidiu com a construção do Morumbi, com o jejum corintiano e com a fase dourada do Santos de Pelé e da Academia alviverde. Nesta época existia uma piadinha que dizia o seguinte: "Quem torce para o Santos é ouro. Quem torce para o Palmeiras é prata. Quem torce para o São Paulo é cachorro vira-lata". E como todo bom vira-lata, o Tricolor durante muito tempo foi considerado um time simpático. Segundo relatos de parentes, até mesmo corintianos gostavam do SPFC. Hoje, depois de tantos títulos, a história mudou.


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Nem só de futebol vive o homem são paulino. Éder Jofre é considerado por muitos conhecedores do boxe como o maior pugilista brasileiro. Ele lutava sob as cores do São Paulo e esta foto é do dia em que ele foi campeão mundial em 1960.



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No escudo do São Paulo as duas estrelas douradas foram adotadas em sua homenagem. Elas se referem aos recordes mundiais batidos por Adhemar Ferreira da Silva nas Olimpíadas de Helsinque em 1952 e nos Jogos Panamericanos da Cidade do México em 1955.

Continuando a saga tricolor, as vacas gordas voltaram na década de 1970, graças a craques como Gerson, Toninho Guerreiro e os uruguaios Pablo Forlán e Pedro Rocha. Inclusive, Pedro Rocha é considerado por muitos são paulinos o maior jogador da história do SPFC. Sempre escutei meu pai falar da classe, da raça e da visão de jogo deste oriental. Um monstro sagrado!

Por falar nisso, o SPFC é o clube paulista com mais tradição em jogadores uruguaios e argentinos. Antonio Sastre foi o primeiro argentino que fez sucesso em Terra Brasilis. El Maestro era dos principais nomes da legendária seleção argentina do anos 40. Em 1953, o Tricolor foi campeão paulista tendo três jogadores argentinos no elenco principal, como o goleiro José Poy (um dos arqueiros mais queridos do clube), Gustavo Albella (Che Guevara vibrou com seus gols em Alta Gracia, vilarejo próximo de Córdoba) e Juan José Negri, além do técnico argentino Jim Lopes (pseudônimo de Alejandro Galán). Do lado uruguaio, os destaques são para o “Caveira Simpática” Pablo Forlán, “El Verdugo” Pedro Rocha, o implacável Darío Pereyra e o monstruoso Diego Lugano.

Nos anos 80, o Tricolor formou grandes equipes e foi disparado o melhor time paulista da década. Entretanto, o destaque vai para os “Menudos do Morumbi” composto por Pita, Silas, Sidney, Müller e Careca.



Guarani 3 x 3 São Paulo. Campeonato Brasileiro de 1986. A melhor final de todos os tempos em Brasileirões. Dois timaços, muitos gols, prorrogação e emoção. Faltando dois minutos para acabar a prorrogação e o jogo, Careca marca um gol suado, sofrido e catártico, acabando com o sonho bugrino do título e acendendo a esperança tricolor. Este é o gol mais emocionante da história são paulina.

Desde que me conheço por gente sou são paulina. Na verdade, sou são-paulina de outras encarnações. E, pela minha idade, sou cria da Era Telê Santana. A equipe do Telê foi simplesmente um dos maiores esquadrões da história do futebol brasileiro e mundial. No Brasil, a hegemonia santista foi a mais longa, dominando praticamente toda a década de 1960. O São Paulo do Telê teve sua hegemonia num período mais curto, entre 1991 e 1994, porém muito mais bem sucedido que o Santos de Pelé no que diz respeito a títulos internacionais oficiais. Graças a Telê, o São Paulo conquistou respeito internacional e tornou-se a terceira maior torcida do país (algo inimaginável, já que a torcida tricolor na década de 80 era a sétima maior do país).

O time do Telê Santana era rápido, com um ótimo toque de bola e jogava sem um centroavante fixo. Foi um período que até os reservas ganhavam títulos, o chamado “Expressinho”. Os grandes nomes desta Era foram: Zetti, Müller, Palhinha, Pintado e Raí, o “Terror do Morumbi”.



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Irmão de Sócrates, Raí é o maior nome da Era Telê Santana e um dos maiores ídolos do clube.

O Tricolor que começou engatinhando no futebol paulista, hoje é facilmente um dos maiores clubes da história do futebol nacional, sem contar o fato de estar longe de ser um clube centenário.

Quem lê este blog e as coisas que escrevo sabe que sou são paulina roxa. Nenhuma novidade. Também devem imaginar como estou contente escrevendo este post sobre a história do meu amado Tricolor. Gostaria de dissertar um pouco mais, porém um post apenas não daria conta. São muitas histórias. Já vivenciei diversas emoções com este time, que assim como um bom filme, sabe fazer seu torcedor rir e chorar. O São Paulo Futebol Clube é o meu Cinema Paradiso. Sensível, habilidoso, romântico, grande, folclórico e requintado.

Salve o Tricolor Paulista! O mais amado clube brasileiro!


Hino Oficial do São Paulo Futebol Clube, escrita pelo tenente e farmacêutico Porphyrio da Paz.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

30 Anos sem Elis Regina

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Por Amanda Borba.


“No dia 19 de janeiro de 1982, morreu em São Paulo, a cantora gaúcha Elis Regina Carvalho da Costa, aos 36 anos, em consequência da ingestão de álcool com cocaína.”



Esta foi a notícia que chocou milhões de brasileiros no início do ano de 1982. Eu não era nascida, mas imagino o grande alvoroço que provocou. Afinal de contas, Elis era uma das maiores cantoras de sua geração (para muitos a maior) e estava no auge de sua carreira.



Conheci a Elis Regina na infância. Meu pai sempre gostou da sua interpretação na música “Fascinação”. Era realmente belo e tocante. Porém, meus pais não eram grandes fãs de Elis Regina e só passei a ter contato com sua discografia no final da minha adolescência.

Uma das maiores interpretações da nossa música. Estupidamente magnífico.


Nunca idolatrei a Elis. Gosto de muitas canções, a considero uma cantora maravilhosa, mas de modo geral acho seu repertório chatíssimo. Contudo o que mais me aborrece são os seus fãs. Essa unanimidade toda que o nome dela carrega me irrita. “Ai, Elis! A maior cantora do país!”; “Ninguém canta como a Elis!”; “Elis é única! É a maior”. Ninguém pode contrariá-los. Da mesma forma como fazem com a Clarice Lispector, seus fãs conseguiram transformá-la em algo chato, careta e messiânico, e se estivesse viva certamente detestaria. Por isso, quando escuto essas coisas meu saco arrasta no chão!


Hino da Anistia


Como todo mundo sabe, Elis tinha uma ótima técnica vocal, sendo acusada, muitas vezes, de supervalorizar isso, tornando-se uma cantora fria. O que não é uma mentira, já que em algumas gravações isso pode ser percebido. Porém a técnica para cantar ela teria sempre, levaria até a morte e isso não poderia ser modificado. No entanto também não era um defeito, já que sua voz era um instrumento e deveria sempre ser aperfeiçoado.




Entretanto, sua emoção era o ponto alto de suas grandes interpretações. Como ela mesma dizia, o grau de emoção era controlado para evitar que se machucasse, já que se entregava demais às canções. Mas acho que em muitas ocasiões os arranjos de diversas músicas não lhe davam abertura para que pudesse “soltar a emoção”. Ou mesmo não ficavam bem. Por mais que digam que existe uma crítica à ditadura por trás da interpretação de “Aquarela do Brasil”, não consigo escutar assim. Acho a versão da Elis muito aporrinhadora, assim como a versão jazzística de “As curvas da estrada de Santos” que acaba descambando num berreiro sem emoção alguma. Além disso, ela gravou muitas canções com arranjos que me soavam “novela da Globo, do Manoel Carlos e no Leblon”. Dois exemplos são as gravações de “Folhas Secas” e “Só tinha de ser com você”. Músicas lindíssimas, mas que na minha opinião, os arranjos não combinavam com a potência de voz da Elis. Acredito que se encaixariam melhor com a pequena voz de Nara Leão, por exemplo.


Só tinha de ser com você


Em compensação, quando Elis acertava... Nossa! Era demais! Quando escuto “Como Nossos Pais”, “O Bêbado e o Equilibrista”, “Casa no Campo”, “Deus Lhe Pague”, “Tiro ao Álvaro” e “Aprendendo a jogar” tenho vontade de soltar a voz junto com ela.

Essa música é o meu ideal de vida. "Eu quero uma casa no campo, onde eu possa plantar meus amigos, meus discos, meus livros e nada mais"



Quero deixar bem claro que considero a Elis Regina uma das maiores cantoras brasileiras e de língua portuguesa. Gosto de várias canções, mas não de tudo que ela gravou. E também não a considero a perfeição em pessoa como, infelizmente, muitos admiradores pregam por aí. Entendo que sua morte precoce no auge da carreira tenha a mitificado, tornando-a uma figura inspiradora para milhões de pessoas. E principalmente para alunos de canto.


Gosto mais da versão do Chico Buarque. Mas essa interpretação é ótima.



Entretanto, por mais que eu não tenha me apaixonado (ainda) pela cantora Elis Regina, minha admiração está em sua personalidade. Se ela era geniosa, temperamental, eu não sei. Talvez fosse mesmo. Não era chamada de “A Pimentinha” à toa. Muitas coisas lhe deixavam louca. Só quem conviveu com ela sabe responder. Porém o que vi em entrevistas foi o seu jeito questionador, ácido, divertido em alguns momentos e com posições feministas, inclusive, até mesmo polêmicas. E isso me fascina justamente porque eu tenho um pouco deste “lado Elis Regina” dentro de mim, mas necessito de tempo e de muita análise para desenvolver melhor. rsrsrsrs...



Para finalizar, deixo este vídeo da Elis Regina e que acho sensacional:


Elis Regina fala sobre aborto e sociedade. Um ótimo video para ser usado em um debate.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O simbolismo individual do natal

Por Andréa Araújo.


Sempre gostei  do natal.

Quando criança, eu morava em um bairro cercado por sítios em uma região campestre de São Paulo. Digo campestre não apenas para suavizar o ruralismo da coisa, mas para descrever como as casas possuíam jardins, árvores, rios e campos. Era um bom lugar para uma criança crescer.

Quando chegava a época natalina, ensaiávamos uma apresentação do nascimento de Jesus. Ninguém era bom ator, mas as meninas mais populares (e bonitas) sempre ficavam com os melhores papéis, enquanto eu sempre fazia parte do rol dos pastores ou  algo semelhante.

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Eram papéis secundários e isso me deixava um pouco chateada (na verdade ficava muito mais triste em saber que não poderia ser Maria porque não era bonita o suficiente), mas, todos os anos, eu aguardava pela época do natal.

Já ouvi muitas definições sobre o natal: desde aquelas que dizem que se tratar do nascimento de Jesus até aquelas que questionam o envolvimento do comércio na história.

Eu, entretanto, ainda aguardo pela época do natal como fazia na infância e hoje dou a ele um novo significado.

Aliás, cada um de nós dá significados particulares a datas e situações específicas. As pessoas podem gostar das mesmas festas, as quais possuem uma significação de conhecimento geral,  entretanto, cada uma dará à ocasião sua própria significação.

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O natal me traz à memória uma época que não existe mais: a parte feliz de minha infância. Uma época em que existiam rabanadas de minha avó e na qual minha mãe instruía meu irmão e eu a colocarmos nossas meias na janela da cozinha para que no dia seguinte, recebêssemos algum presentinho sabe-se lá de quem, pois, nunca tivemos a cultura de Papai Noel. Só sei que algum brinquedo de plástico aparecia na meia na manhã de natal e eu, embora um pouco desconfiada, ficava moderadamente feliz.

Conheço gente que não gosta do natal, pois, a data lembra entes queridos que partiram ou remete à tristeza e solidão. Outros já se entregam aos excessos característicos da época. E alguns, acham tudo uma grande bobagem, pois, Jesus (se é que existiu) sequer nasceu em dezembro e a data é apenas um pretexto para a prática exacerbada do capitalismo.

Bem...

Como já disse anteriormente, cada um interpreta a data de acordo com os símbolos que carrega internamente. E são esses símbolos que nos apontam para quão importante ou insignificante algo possa ser.

Meus símbolos apontam para uma árvore iluminada, pois, minha mãe fazia questão de montá-la todos os anos, para o carinho de minha avó, com as comidas maravilhosas de seu cardápio natalino e para o presépio humano-infantil que encenávamos (mesmo meio a contra-gosto em meu papel de coadjuvante feia).

Por isso e apesar disso, eu gosto muito do natal.

Feliz natal a todos os que gostam e também àqueles que não acham que o natal seja, assim, grande coisa.

O importante é olhar para dentro de nós e perceber para onde nossa estrela interna nos guia, seja para Belém, seja para Papai Noel, seja para a luta anticapitalismo, seja para a indiferença.

O nosso símbolo interior nos guiará.

Feliz, feliz natal!


sábado, 17 de dezembro de 2011

Torcedor e elitização do futebol

Por Amanda Borba.


Abastados leitores e abestados leitores. Depois de tanto tempo longe do blog, voltei. Agora que o campeonato brasileiro acabou e o Coringão foi campeão, quero falar sobre algumas coisas que me incomodam no futebol. 


Pois bem, cresci escutando aqueles velhos discursos sobre "time da elite" e "time do povo". Um monte de blábláblá e uma divisão completamente estúpida. Por isso, eu resolvi desconstruir alguns "mitos" criados a respeito disso. 


Tendo como referência alguns estudos realizados pelo Ibope, Data Folha e cambada a quatro, e analisando as pesquisas sobre as torcidas nas classes mais baixas, Flamengo, Corinthians, São Paulo e Palmeiras aparecem como as maiores torcidas. Assim sendo, Flamengo e Corinthians são os clubes mais “populares” do país. Isso todo mundo está careca de saber.


Quando avalia-se o resultado das entrevistas com pessoas que possuem ensino superior, a ordem é a seguinte: Flamengo, Corinthians, São Paulo e Vasco. Agora se o critério for a renda, a mesma ordem se mantem, mas com empate técnico entre Flamengo e Corinthians. Portanto, em termos absolutos, Flamengo e Corinthians também são os clubes mais “elitistas” do Brasil. Convenhamos nada mais natural, já que são as maiores torcidas do país.


O que quero dizer com todas estas informações é que “time de elite” em si não existe. Todos os clubes são do povo e possuem torcedores em todas as classes sociais e em todos os níveis de escolaridade. O que existe na verdade é uma tentativa de “elitizar” todas as torcidas. O futebol que começou como um esporte elitista e para poucos, tornou-se parte da cultura popular, porém sofrendo pressão do capitalismo selvagem. A questão aqui não é focar a mercantilização, mas sim a elitização do esporte. O futebol sempre foi mercado, sempre existiu salário, compra e venda de jogadores, a cartolagem e tudo mais. A diferença é que antes existiam os torcedores de arquibancada e das “gerais” (os famosos arquibaldos e geraldinos) o que aos poucos está diminuindo. Não critico a modernização dos estádios, pelo contrário, é necessário, ninguém merece entrar em pulgueiros, mas repreendo os preços nas alturas, que afastam uma parcela importantíssima da população. Isso sem contar as lojas oficiais de cada clube que fazem seus torcedores pagarem preços abusivos por camisas ou outros objetos do clube.


Certa vez eu conversava com um vizinho corintiano e ele me disse que não ia mais aos jogos do Corinthians por causa dos preços excessivos, pois não eram justos. E estou de pleno acordo. Ir ao estádio já pode ser considerado programa de "rico".


Também não quero dizer que quem tem grana não possa ir ao estádio. O amor por um time de futebol é maior do que qualquer conta bancária. Rico também ama. E de vez em quando usa o coração.


Outro ponto é que a origem de nenhum clube pode determinar o caráter sócio-econômico-cultural de alguma torcida. Se fosse assim, dos times cariocas, o único clube que poderia ser considerado “do povo” seria o Vasco da Gama. Mas na prática isso não acontece. O Flamengo, com origens elitistas, tornou-se o clube com o maior apelo popular no Brasil. Entretanto, a única ressalva se faz, caso essas histórias sirvam como “mitos de origem” e com isso se deseje explicar determinada auto-imagem que o torcedor e porventura o clube tenham em relação a si e aos outros. E, é claro, tudo isso com a ajudinha da mídia, porém não vou me aprofundar nesta questão.


Partindo do exemplo do futebol paulista, uma parte considerável da torcida do São Paulo gosta de ser tachada de “elite”, mesmo que em sua maioria sejam pobres. Mas isso acontece, principalmente, quando o argumento é comparar-se aos corintianos. É a sua auto-imagem sendo confrontada com a auto-imagem do outro. No entanto quero deixar bem claro que isso não é uma característica apenas são-paulina, mas também de palmeirenses, santistas e tantos outros que gostam de falar aquelas ladainhas idiotas como “corintiano é ladrão, analfabeto e favelado”. Da mesma forma acontece o oposto. Para os outros torcedores, os “são-paulinos são arrogantes, frescos e afeminados”, por isso adotam uma postura mais machista e de falsa modéstia (sim, pois todo torcedor é arrogante, principalmente quando o seu time está bem e o seu adversário está na merda).

Depois que passei a ver as coisas desta maneira costumo tirar o sarro desses estereótipos. Ao invés de me irritar com gente que só repete, sem consciência alguma, as coisas que escutam por aí, e de quebra parecer uma chata sem senso do ridículo, a melhor coisa a fazer é rir de si mesmo. As vezes, vejo certas coisas que me fazem querer desitir do futebol, mas o fascínio que o esporte proporciona a tantas pessoas não me permite fazer isso. 


O fato é que a elitização do torcedor chegou com tudo e nada indica que vai terminar. Muito pelo contrário. O jeito é acompanhar o seu time pela tv e com todo o conforto do lar.





Geraldinos e Arquibaldos - Gonzaguinha, irmão gêmeo do Doutor Sócrates.

domingo, 30 de outubro de 2011

Maradona: La Mano de Dios

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Por Amanda Borba


Hoje Diego Armando Maradona está completando 51 anos de idade. Quem me conhece sabe que me amarro no Dieguito. Quem não me conhece fica surpreso com a revelação. Geralmente, as pessoas costumam torcer o nariz quando falo o nome de Maradona ou então repetem aquela mesma arenga idiota, o chamando de “argentino drogado, cheira pó ou gordo fumeiro”. Pura cretinice.

Meu pai sempre foi um grande admirador do futebol argentino e fã incondicional de Maradona. Ele acompanhou toda a carreira de Diego, tem vídeos e sempre explica porque, em sua opinião, Maradona é o melhor jogador da história do futebol. Por isso, graças ao meu velho, passei a gostar do Maradona e a ter simpatia pela Argentina.

Não lembro bem ao certo quando decidi saber mais sobre Diego. Acredito que foi lá pelos meus 15, 16 anos. Até então eu não sabia dizer quem, em minha opinião, era o melhor jogador de futebol de todos os tempos. O único jeito era pesquisar sobre as carreiras e assistir vídeos dos maiores futebolistas da história.

E foi o que eu fiz. Assisti muitos vídeos de jogadores como Garrincha, Pelé, Di Stéfano, Zico, Cruyff, Platini, Zidane, antes de chegar ao Maradona. E tudo que eu havia visto até então não se igualava em nada com o que eu assistia de Diego. Jogadas que não vi nenhum outro jogador fazer. Maradona conseguia transformar um simples passe em pura genialidade, dando o mesmo brilhantismo como se fosse um gol de placa. A habilidade aliada a velocidade, a sua visão de jogo e seu domínio de bola eram impressionantes. Os gols então... Eram maravilhosos! Gol de falta dentro da grande área, próximo da área, de longa distância, driblando meio time adversário, gol olímpico, gol do meio-campo, gol de mão, enfim gol de tudo quanto é jeito. Maradona em campo era como se fosse um artista se apresentando no circo. Imprevisível e mágico. Sem dúvida alguma, ele foi o jogador mais técnico de toda a história do futebol.

Mas além de seu indiscutível talento, sua personalidade revolucionária sempre me chamou a atenção. Podemos comparar a carreira e a vida de Maradona a jornada do herói proposta por Campbell. Diego é tratado por seus admiradores como um "deus". Porém, um deus humanizado, dividido entre o mundo dos mortais e dos imortais, defendendo os mais fracos e denunciando corruptos e decadentes. Assim como qualquer escolhido, Maradona foi exposto desde a infância a grandes dificuldades.

Sua aventura tem como ponto de partida o mediano clube Argentinos Juniors. Entretanto, sua iniciação como ídolo aconteceu em sua passagem pelo clube de coração, o Boca Juniors. Chegando na Europa, Diego começa a ser testado e provado, enfrentando obstáculos monstruosos e prazerosos. 

No Barcelona, Diego tem que provar o talento e o valor de um "sudaca" (termo pejorativo para sul-americanos). Ainda na Espanha, Maradona teve a contusão mais grave de sua carreira, mas mesmo assim conseguiu mostrar uma espetacular performance no clube catalão que, ao meu ver, foi muito mais digna do que as passagens de Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho.

Contudo, o grande ápice de sua carreira foram os sete anos jogando pelo Napoli e a Copa de 1986. Como diz o diretor de cinema iugoslavo Emir Kusturica: “Foi um milagre que a Terra não tenha saído de seu eixo quando mais de um bilhão de pessoas saltou ao mesmo tempo. Foi o momento que celebraram o gol de Maradona contra a Inglaterra na Copa do Mundo do México”.

E é verdade. Os dois tentos de Maradona contra a Inglaterra talvez sejam os gols mais famosos de toda a história do esporte bretão. Além de todo simbolismo que existiu nesta partida. Ambos os países haviam guerreado pela soberania das Ilhas Malvinas. Este jogo foi um daqueles pouquíssimos momentos em que um país endividado pelo FMI conseguiu triunfar sobre uma potência mundial. Graças a isso, Diego foi visto como herói e conquistou uma grande recompensa: o amor de todo o povo argentino e a admiração de bilhões de pessoas do mundo inteiro. E tudo isso só com o seu pé esquerdo, assim como no filme do ator Daniel Day-Lewis.

Ainda na Europa, Maradona cai diante da tentação das drogas, tornando-se mais uma vítima da cocaína, iniciando assim a sua autodestruição. Fico imaginando como teria sido mais longa a sua carreira e que jogador deixamos de ver. Acredito que teria sido muito mais extraordinário do que já foi. Escuto muita gente dizer que Maradona não é exemplo para ninguém por causa do seu problema com as drogas. Penso o contrário. Antes ele poderia não ser, mas hoje ele é um exemplo de como se supera a dependência química. Mas enfim, acredito que Maradona não se importa em ser ou não ser exemplo para as pessoas.

Contudo, assim como qualquer "mito herói", Maradona mesmo destruído e lembrando um comedor de espaguete quase morto, consegue, graças a uma ajuda sobrenatural, renascer das cinzas como uma ave fênix, mas agora adquirindo o aspecto de um revolucionário mexicano. Mas esta foi apenas uma das tantas ressurreições de Diego. Depois disso, o herói Maradona finalmente conseguiu retornar à sua pátria. 

Ninguém imagina como fiquei contente em vê-lo na última Copa do Mundo e como torci pelo seu sucesso. Observar aquele senhor baixinho, vestido de terno, fumando charuto, lembrando um mafioso, e com um terço nas mãos, dirigindo a seleção de seu país foi algo indescritível. Havia algo místico no ar. Assistindo o Maradona na Copa do Mundo da África do Sul, eu tive a sensação de estar vendo um filme italiano, pois eram alegrias e tristezas ao mesmo tempo.

Por tudo isso, nenhum outro jogador de futebol é tão ídolo como Diego. A devoção dos napolitanos é gigantesca. Maradona trouxe o orgulho aos habitantes de Nápoles. O time azul e branco era o único representante do sul da Itália que finalmente conseguia quebrar a sensação de que os sulistas não podiam ganhar dos nortistas desenvolvidos e ricos. Para os napolitanos, Maradona foi muito mais do que o jogador que fez o Napoli ganhar tudo, mas sim um santo. Santa Maradona!

Em Rosário, na Argentina, foi criada a Igreja Maradoniana para cultuá-lo e homenageá-lo. Esta seita nada mais é que um exemplo de uma sátira religiosa, característica da nossa sociedade secular. Esta igreja possui mais de cem mil membros em todo o mundo e há muitos pontos em comum com a Igreja Católica, como versões de orações, batismo, casamento e um livro sagrado.

Como relatei no meu texto sobre John Lennon, gosto de figuras humanas e Maradona é assim. Ele é um deus humano. Nunca fez questão de parecer perfeito e de pregar um bom-mocismo falso como muitos fazem por aí. Por isso apesar de sua jornada heróica, Maradona é muito mais um anti-herói do que um herói. Sua justiça é feita por motivos egoístas, pessoais, por vingança, por vaidade. Suas falhas são mais gritantes do que suas virtudes. Diego errou, brigou, xingou, venceu dificuldades e lutou como qualquer outra pessoa. Maradona foi, é e sempre será ele mesmo. Carismático, talentoso, controverso, genioso, humilde, convicto, divertido e sarcástico.

Agora quem quiser entender a personalidade e a vida deste senhor, eu indico o filme “Maradona por Kusturica”, a melhor película sobre o atleta. Eu ficaria aqui falando milhares de coisas sobre Maradona, mas prefiro deixar alguns videos. Afinal, como diz o provérbio, uma imagem vale mais do mil palavras.


"Santa Maradona, priez pour Moi"


A vida de Maradona em cinco minutos e ao som de The Killers.


Acho esta uma das cenas mais emocionantes do filme de Kusturica. Ninguém melhor do que Manu Chao para cantar sobre Maradona. "Si yo fuera Maradona viviria como el. Porque el mundo es una bola que se vive a flor de piel".


Passes geniais de Maradona.


Este documentário relata toda a trajetória de Maradona na Itália. O documentário completo está disponível no youtube.


Gol do meio-campo e sem o goleiro estar adiantado. Maradona era fodástico.


Alguns gols de Maradona.


O gol mais belo da história de todas as Copas do Mundo narrado de forma emocionante pelo locutor uruguaio Victor  Hugo Morales.










sábado, 29 de outubro de 2011

O bem-aventurado Sérgio Sampaio

REPRODUÇÃO


Quase todas as pessoas que conheço, não sabem quem foi Sérgio Sampaio. Por ser um artista que não se encaixava nos padrões dos cantores que as gravadoras desejavam, muita gente o chama de “maldito” da MPB. Sinceramente, acho este termo “maldito” um pouco besta, já que só alguns cantores acabam sendo classificados desta maneira, além da definição não ser muito clara. Lenine, por exemplo, até outro dia era considerado um cantor “maldito” devido seus trabalhos dos anos 80. Porém ele perdeu este rótulo depois que passou a flertar com o pop e a gravar canções de fácil “grude” tendo assim mais acesso ao grande público.

Entretanto, diferentemente de Lenine, Sérgio Sampaio nunca perdeu este título. Assim como a grande maioria, eu não o conhecia. Não sabia se era gordo, magro, alto, baixo e jamais havia escutado alguma coisa sobre ele. Vivia muito bem sem ele. Só fui tomar ciência de suas músicas há bem pouco tempo, coisa de um ano, um ano e meio. Lembro que foi através do Orkut. Numa das comunidades que eu participava, um membro postou um tópico falando sobre ele. Fiquei acompanhando a conversa do pessoal e assistindo cada um dos vídeos que iam sendo postados. Confesso que minha primeira reação foi ficar atônita. Suas composições eram absolutamente arguciosas e sua voz muito gostosa de ouvir. Foi paixão à primeira escuta.


Sérgio Sampaio nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, cidade que tem como filho mais ilustre o cantor Roberto Carlos. Devido este fato, quando ele fez sucesso com a música “Eu quero é botar meu bloco na rua”, que por sinal é sua canção mais conhecida, muitas pessoas achavam que Sérgio seria o sucessor do Robertão. O que não aconteceu, já que ambos eram absolutamente dessemelhantes. Outra curiosidade é que foi seu pai, Raul Sampaio, que compôs a música “Meu Pequeno Cachoeiro” gravada pelo Robertones no disco de 1970.

Buscando novos ares, Sérgio saiu de Cachoeiro e partiu para o Rio de Janeiro. Lá ele conheceu um baiano muito doido chamado Raul Seixas, que na época era produtor musical da gravadora CBS. O encontro dos dois foi eletrizante e do curto-circuito nasceu uma breve parceria. Muitos dizem que Raul seria a sua alma gêmea musical. A diferença é que Sérgio não conseguiu a mesma notoriedade e idolatria que Raulzito conquistou. O jeito de ser de Sérgio Sampaio foi o que mais colaborou com o ostracismo do cantor. Ele não queria fazer sucesso, seu interesse era simplesmente deixar suas obras para a posteridade.

De todo modo, Sérgio gravou vários estilos, como samba, choro, rock, blues, baladas e realizou algumas incursões pela música pop. Suas composições eram debochadas, escrachadas, melancólicas, ácidas, pessimistas e desesperadas. As principais influências estavam nas obras de Kafka e do poeta mais cabra-macho que existiu neste país, Augusto dos Anjos.

Independente de ser ou não “maldito”, Sérgio Sampaio foi um fantástico compositor e que por ironia do destino foi muito subestimado. Ele supera muitos outros compositores que são venerados por aí (não citarei nenhum para evitar maiores problemas, rsrsrs). Dos cantores atuais, Sérgio influenciou Zeca Baleiro, que lembra um pouco o seu estilo, mas sem a mesma genialidade.


Infelizmente, Sérgio Sampaio morreu de pancreatite, em 1994, graças ao abuso nas carraspanas. Não se tem certeza, mas é possível que, se estivesse vivo, sua visão sobre a carreira poderia ser completamente distinta, já que estaria mais experiente. Talvez até deixasse de ser tão “maldito” e cairia nas graças do público como um “abençoado” da música brasileira. Sua discografia é pequena, mas vale muito a pena escutar. Ouçam e deslumbram-se com um dos maiores compositores (esquecidos) da nossa música.



Marcha-rancho "Eu quero é botar meu bloco na rua", de 1973.


O xote elétrico "Quero ir" foi uma das parcerias de Sérgio Sampaio com Raul Seixas no disco "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10".


Samba "Odete". "Por entre bancários, automóveis"


Sérgio era um cantor muito expressivo e extremamente melódico. "Eu sou quem curte o silêncio, o momento, o segredo. Quem geme de frio. Quem tem medo. Quem anda abatido."



"Meu pobre blues" foi uma ambígua elegia para o seu conterrâneo Roberto Carlos. Interpretação de Zizi Possi.


Quem curte samba-canção vai se apaixonar por "Velho Bode". "Você é um fracasso no meu lado esquerdo do peito. Uma corda de nylon de aço que arrebenta quando eu faço nó".


"Ninguém vive por mim" é um pop bastante suingado e que relata a difíil relação de Sérgio Sampaio com a indústria fonográfica.


"Que loucura" é um fox em homenagem ao poeta e letrista Torquato Neto.




sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Vagas para o final de ano - Le Postiche

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domingo, 16 de outubro de 2011

Meu querido Bob Charles

REPRODUÇÃO



Por Amanda Borba.

Passei toda a minha infância odiando o Roberto Carlos. Achava a voz dele feia, suas músicas eram chatas e extremamente bregas. Meu pai e minha mãe gostavam, mas o meu coroa escutava mais e até pedia para que eu gravasse os especiais de fim de ano e tudo mais. Pena que ele sempre curtiu as piores fases do Roberto e talvez isso explique a minha antipatia inicial.

Era horripilante, não dava pra escutar músicas como “Mulher de quarenta eu só quero ser o seu namorado” ou “Obsessão, não, não, obsessão. Essa mulher virou minha cabeça e o meu coração” ou pior ainda “Coisa bonita, coisa gostosa, quem foi que disse que tem que ser magra pra ser formosa”. Aaaaahhhhhhhhh! Queria me matar ao estilo Didi Mocó.

Porém uma pequena mudança aconteceu quando escutei “É preciso saber viver” na versão dos Titãs. Não acreditei. Isso é Roberto Carlos? No entanto, eu continuava com um pé atrás a respeito do Robertones. Ele ainda não havia me convencido. Ficava me perguntando como que um cara com músicas podres podia ser chamado de rei? Eu ficava inconformada.

Bom, mas depois que meu pai comprou no Largo Treze (salve os camelôs!) a discografia completa do Roberto Carlos entre 1959 e 1987, a minha visão sobre o Robertão mudou completamente. Sofreu um giro de 180 graus. Certo dia, meu pai escutava “Todos estão surdos” do disco de 1971. Eu já conhecia a versão do Nação Zumbi, mas nunca havia escutado a gravação original. Bicho, eu fiquei totalmente BES-TI-FI-CA-DA! Roberto Carlos estava cantando soul!

Aí fiquei curiosa e fui fuçar aqueles dois CDs com a discografia, em mp3, dos anos 60 e 70. E finalmente descobri que havia vida inteligente fora dos especiais de fim de ano da Globo. Continuei não curtindo a fase “iê-iê-iê”, a maioria das músicas eram bobinhas (com algumas preciosas exceções), mas me deliciei com os últimos discos dos anos 60: “Em ritmo de aventura”, “O Inimitável” e “Roberto Carlos 1969”. Eram petardos atrás de petardos. A música “Quando” já mostrava a passagem do sonzinho meia-boca para o black music. E quanto mais eu fui escutando, mais alcancei o amadurecimento das músicas do Robertão.

Mas o disco de 1969 foi o melhor da fase sessentista. Sua voz estava mais bonita e Roberto começava a se destacar como intérprete. “As flores do jardim da nossa casa”, “Não vou ficar” de Tim Maia, “Sua estupidez” e “As curvas da estrada de Santos” são alguns clássicos que estão presentes neste disco.

As flores do jardim da nossa casa - 1969 - Composição: Roberto Carlos e Erasmo Carlos.


Mas o eldorado do Roberto Carlos estava mesmo nos anos 70. Ah! Os adoráveis anos 70! Robertão continuava funk, soul, mas não era mais rock ‘n’ roll. Ele já começava a ser gospel e romântico. Os arranjos eram ótimos. No disco de 1970, destaco a canção “Jesus Cristo”. Aqui ele bebeu da fonte da música gospel norte-americana. O piano, o coro, o baixo, as palmas, tudo isso foi engrandecendo a música. Neste mesmo disco também está a canção “Vista a roupa meu bem”. É um Roberto Carlos com a voz estranha, mas muito gozador.


Não vou ficar - 1969 - Composição: Tim Maia 


O álbum de 1971 é um dos meus preferidos. Praticamente todas as músicas são maravilhosas. Tem clássicos românticos como “Detalhes” e “Amada, amante”. A música “Como dois e dois” de Caetano Veloso é um soul no melhor estilo Ray Charles e acho um charme ele cantando “tudo em volta está deserto, tudo certo”. “Todos estão surdos” também é um soul maneiríssimo e com teor religioso. Porém uma música muito engraçadinha é “I Love You”, na qual Roberto canta ao estilo de Nelson Gonçalves um fox bem-humorado.

A partir de 1972, Roberto começa a fazer aquelas obras-primas que se eternizaram na trilha sonora da vida de muita gente. Suas composições ao lado de seu amigo de fé Erasmo Carlos falam de coisas que todo mundo vive: uma despedida; a volta de quem estava longe de casa; a chegada de uma criança; filhos; um amor que não deu certo; o relacionamento de um casal; a amizade; a sabedoria na simplicidade e etc.

Jesus Cristo - 1970 - Composição: Roberto Carlos e Erasmo Carlos


No disco de 1972, destaco “Agora eu sei”, “Quando as crianças saírem de férias”, “Você é linda”, “À Distância” e “Negra”.

O álbum de 1973 também é muito legal. Gosto muito das músicas “A cigana” e “O moço velho”. Também adoro “Proposta” que é a primeira de várias canções românticas com doses de erotismo. Entretanto, o destaque vai para a última canção soul da carreira do Robertão, a música “Não adianta nada”.

Todos estão surdos - 1971 - Composição: Roberto Carlos e Erasmo Carlos

Daí pra frente, até o início dos anos 80, Roberto gravou vários clássicos românticos de seu repertório. Particularmente, AMO o Roberto Carlos de 1967 a 1980. Mas acho que entre 1969 e 1973 sua obra pode ser considerada irretocável. Contudo admito que ODEIO o Roberto da década de 80 em diante. Quando escutei “Caminhoneiro”, entendi que ali o Robertão havia escolhido outro rumo para a sua carreira.

Como 2 e 2 - 1971 - Composição: Caetano Veloso

Acredito que nesta época o Transtorno Obsessivo Compulsivo também o atrapalhou muito, já que crenças e pensamentos negativos travavam sua inspiração. Ficou repetindo melodias e só mudando as letras. Já a fase “Maria Rita” não se aproveita nada. Virou um carola chorão e inteiramente bregão. Só escrevia música de “mulher de óculos, baixinha, gordinha e de 40”. E isso é o que me dá mais raiva. Fiquei p* da vida vendo o Roberto gravar com Chitãozinho e Xororó a música “Arrasta uma cadeira” (esses dois caipiras não se contentaram em afundar sozinhos e levaram o Robertão junto). Pra mim isso foi fim de feira. Uma catástrofe mundial. Como que pode um cara sair do original, sublime e comovente e ir para o decadente, brega e chato. Infelizmente, o Roberto se acomodou e resolveu ser um cantor de cruzeiro insistindo em renegar suas canções mais primorosas.

Agora eu sei - 1972 - Composição: Édson Ribeiro e Helena dos Santos

Enfim, mesmo com tudo isso, com aquela orquestra irritante e com a Rede Globo, eu continuo adorando o Bob Charles. Hoje acho incompreensível escutar alguém dizer que não gosta dele. Talvez digam isso por desconhecimento, já que durante toda a sua carreira ele foi um camaleão e teve inúmeras fases. De todo modo, eu penso que Roberto é um dos poucos cantores com a capacidade de sensibilizar as pessoas. É um trovador repleto de sentimentos. Graças as suas odes heroicas sobre o amor e todas as coisas que acontecem na vida de qualquer pessoa, eu consegui entender porque Roberto Carlos é chamado de rei. Ele realmente foi uma brasa, mora!


O Moço Velho - 1973 - Composição: Silvio César