Neste domingo de Dia das Mães, navegando na internet, vi esta imagem compartilhada no facebook de um amigo. Até aí nenhuma novidade, cada um compartilha o que quiser. E quem lê o blog, sabe que não sou admiradora do Senna, mas mesmo assim o considero o maior ídolo esportivo do país, por todas as circunstâncias que expliquei neste post (http://psicoisinhas.blogspot.com.br/2012/03/o-mito-ayrton-senna-do-brasil.html). Entretanto, eu fiquei pensando: será mesmo muito bem sucedido um cara que buscando esse "último limite", o "melhor de si", mas que morreu esmagado num muro de concreto com 30 e poucos
anos de idade?
Está certo que o mesmo carro que deu dinheiro, fama, Galisteus e Xuxas, também foi quem tirou o que o Senna tinha
de mais importante: a vida. E o pior de tudo: no auge.
Estou dizendo essas coisas porque
discordo completamente desse emblema sennista de que o ser humano deve buscar
todos os seus limites, de se superar e buscar sempre o máximo do
máximo. Histórias de superação as vezes me causam tédio. Claro que a gente não deve ser acomodado, bunda-mole e fraco, mas essa neura de ter
que ser sempre "o melhor", de querer provar a todo o tempo e a todo mundo não só que é
bom, mas que é o "melhor dos melhores", o "campeão dos campeões", acho péssimo. E usar o
Senna como exemplo de êxito, acho o cúmulo. Uma vida interrompida no
auge e em decorrência de um desastre provocado pelo seu ímpeto descontrolado de ser o bonzão e o vencedor, ao meu ver, não pode ser considerada um exemplo de sucesso.
O rock é o estilo musical com um
passado riquíssimo. Em São
Paulo está acontecendo o Let’s Rock, a maior exposição sobre
a história do gênero já feita na América Latina. A exposição faz um mergulho nesse universo através de roupas, fotos, instrumentos, discos e
todo o tipo de memorabília dos principais astros do rock mundial. No feriado de 21 de abril, eu
e alguns amigos do trabalho fomos conferir essa mostra no Parque do Ibirapuera.
Da esquerda para a direita: Kleber trabalha no Departamento Financeiro
e é o “Johnny Cash” do quarteto, o nosso “homem de preto”. Jhones (que já possui nome de rock star) é
web designer e é popularmente conhecido como “Do Mal”. Bruna trabalha comigo no
RH e ela é a nossa jovem e delicada deusa Perséfone. E finalmente eu, a pessoa
mais avacalhada e caótica deste quarteto, além de colaboradora deste humilde
blog.
Chegamos à Oca do Ibirapuera por
volta das 11h30min. Logo na entrada fomos contemplados com algumas frases de
personalidades do rock. Passamos por um túnel do tempo onde pudemos observar os
principais fatos e a transformação do rock ao longo das décadas.
Em seguida conhecemos um ambiente
repleto de guitarras e violões onde brincamos de ser estrelas do rock. Em outro espaço vimos diversas
capas históricas da revista Rolling Stone e tiramos fotos ao lado de roqueiros
como Raul Seixas, Jimmy Page, John Lennon e vários outros.
Caminhando e cantando, subimos uma rampa e fomos até o
ponto mais alto da Oca onde deitamos em colchonetes e escutamos nos fones de
ouvido trechos de algumas canções famosas. Também apreciamos imagens projetadas
no teto contendo os melhores momentos de bandas famosas.
De lá fomos para o lugar mais
legal da exposição. Neste ambiente ficavam vários armários com objetos de
colecionadores dos principais cantores e bandas de rock. Entretanto, confesso que me decepcionei com os armários do
Raul Seixas e dos Beatles. Achei um pouco pobre. Também fiquei chateada por não
encontrar nada do Carlos Santana, o maior expoente do rock latino-americano.
Bom, finalmente chegamos às
gigantescas fotografias de Bob Gruen, principal fotógrafo do rock. Ao mesmo
tempo entramos em pequenas salas divididas por décadas. Dentro destas salas
acontecia uma mistura de luzes coloridas, tocavam-se músicas, além dos
murais serem constituídos por fotos e imagens de roqueiros de cada época.
Particularmente, adoramos a sala dos anos 60 e cantamos com Roberto Carlos a
música “Eu te darei o céu”. Em seguida curtimos “Time is on my side” dos Rolling Stones.
No final do nosso passeio paramos
em frente a um latão enorme com quatro fones de ouvido. Do outro lado estava
sendo projetada na parede a imagem de uma apresentação ao vivo de uma banda
pouco conhecida (graças ao Kleber descobrimos que se tratava do Talking Heads).
Começamos a escutar aquele som
maravilhoso, com uma loira arrebentando no baixo. A banda misturava alguns
elementos de sons africanos com rock e funk. É uma miscelânea tão boa que você
acha que a música está indo para um lado, mas aí o baixo e a bateria mostram
outro lado totalmente diferente. O som era tão estupidamente delirante que
começamos a imitar os passos dos componentes da banda fazendo com que muitas
pessoas prestassem atenção em nós, os únicos a dar bola para aqueles pobres
latões com fones. O momento mais engraçado foi quando uma moça chegou sorrindo,
achando graça da nossa dança e resolveu escutar a banda. Imediatamente ela
começou a dançar também. Rimos demais.
Mas foi isso. Neste post falei só um pouco do que vimos. Ao
vivo é muito melhor. Vale a pena conferir. Por isso aproveitem, pois a
exposição ficará até o dia 27 de maio. Vejam as fotos:
Raulzito. O baiano mais porreta que já existiu.
Meus adorados e idolatrados "Bitols".
Ternurinha do Chuck
Túnel do tempo do rock
Guitarra do Jimmy Page
Guitarra do B.B. King
Boneco do Freddie Mercury
A maior preciosidade da exposição. Violão de Elvis Presley.
No dia 02 de abril de 1983, na madrugada de Sábado de Aleluia, nossa música perdeu uma das suas maiores intérpretes e, talvez, a principal cantora popular brasileira. Clara Nunes tinha 39 anos de idade quando morreu vítima de um choque anafilático e lutou pela vida durante vinte e oito dias até o seu sofrimento final.
Jamais entendi porque muitos especialistas em música não dão muito valor a sua obra, diferentemente de outras grandes cantoras nacionais que são exaltadas ao extremo. Acredito que o fato de ter sua imagem ligada às religiões afro-brasileiras seja um dos motivos.
Desde que me conheço por gente que escuto a seguinte frase: “Clara Nunes cantava muito, mas suas músicas eram de terreiro, podia ter gravado canções melhores”. Creio que o preconceito existente com as religiões afro-brasileiras impede que as pessoas enxerguem a riqueza de sua obra musical.
Há quatro anos conheci a obra de Clara Nunes. A “Tal Mineira” possuía uma das vozes mais lindas de que se tem notícia e, em minha opinião, ao lado de Maria Bethânia, foi uma das melhores intérpretes da nossa música, sendo a que melhor cantou samba, música brasileira por excelência.
Desde a morte de Carmen Miranda, Clara Nunes foi a artista que mais construiu sua carreira baseada numa imagem afro-brasileira aproximando-se de escolas de samba e de seus compositores diferenciando-se de outras cantoras contemporâneas como Elis Regina, Maria Bethânia e Gal Costa. Inclusive, foi a primeira cantora que quebrou o tabu de que "cantoras não vendem discos". Entretanto sempre declarou que seu intuito não era apenas vender discos ou ser uma sambista, mas sim uma “cantora popular brasileira”, tanto que gravou diversos ritmos como forró, marcha-rancho, samba-canção, bossa-nova, frevo e músicas folclóricas.
"Você passa e eu acho graça" de Ataulfo Alves e Carlos Imperial
Em 1966, Clara gravou seu primeiro disco, dedicado principalmente a boleros, sendo este um fracasso total. A gravadora Odeon fez Clara gravar múltiplos gêneros musicais como boleros, músicas românticas, jovem-guarda, até que em 1968, com a ajuda de Ataulfo Alves, conseguiu gravar samba, conquistando certo sucesso com a música “Você passa e eu acho graça”.
Contudo o divisor de águas tanto na carreira quanto na vida espiritual foi uma viagem à África no início dos anos 70. Ela voltou transformada e extasiada com a experiência. Na volta, Clara Nunes elaborou uma nova proposta de carreira dando início a sua consolidação artística fortemente marcada por um estilo e imagem que aproximou a cantora do samba e da umbanda, sendo rotulada de forma pejorativa como “sambista, cantora de macumba”.
"Clarice" de Caetano Veloso e Capinan.
A carreira de Clara Nunes pode ser dividida em três fases diferentes. A primeira fase foi marcada por um espaço no mercado fonográfico que, inicialmente, tentou transformá-la num “Altemar Dutra de saias”, ou seja, numa cantora de boleros. A segunda fase se caracterizou pela descoberta da África e da umbanda, transmitindo um novo estilo à sua imagem artística. A terceira fase diz respeito ao seu desejo de ser uma cantora popular brasileira colocando no centro de sua obra a ideia de mestiçagem na identidade nacional e como as religiões afro-brasileiras se fixaram na cultura popular.
Clara construiu sua imagem de “Guerreira” graças a sua fama de lutadora (ficou órfã cedo e tentou inúmeras vezes, sem sucesso, engravidar) e seu envolvimento pessoal com o candomblé e a umbanda, sendo que seus orixás de cabeça, Ogum e Iansã, são considerados santos guerreiros. Clarinha tornou público o uso de pulseiras, guias, danças de orixás, gestos, posturas corporais e até mesmo tabus alimentícios e outras informações que despertavam a curiosidade das pessoas.
"Guerreira" de João Nogueira e Paulo César Pinheiro.
Durante o período da ditadura militar, as canções possuíam um caráter politico e protestavam contra o governo, sendo este um momento de total ausência de aspectos do Brasil nas canções. Por outro lado, a “Guerreira” pautou sua trilha na finalidade de divulgar o que ela considerava como a legítima cultura brasileira. Clara era uma estudiosa da cultura popular brasileira, de seus ritmos e de suas manifestações e graças a isso fez o candomblé e a umbanda chegarem a um público mais amplo e de uma maneira positiva, sem folclorizá-las, apresentando o lado alegre, vibrante, majestoso, mágico e hedonista dessas religiões, além de cantar diversos pontos de umbanda e adaptá-los aos parâmetros da indústria musical.
De certo, sabe-se que Clara não era compositora (escreveu uma ou outra composição), sua grande habilidade era interpretar as canções alheias. Como dito anteriormente, Clara foi uma das melhores intérpretes brasileiras, pois a interpretação que dava as músicas era tão marcante e com tanta intensidade emocional que estabeleceu uma profunda identificação com as músicas que gravava, tanto que a grande massa as classificava como “músicas de Clara”. Como dito por Chico Buarque, Clara transformava a canção.
"Morena de Angola" de Chico Buarque.
O repertório de Clara Nunes permite pensar na diversidade mestiça da cultura brasileira, da mistura das três raças – índios, negros e brancos – afirmando nessa mestiçagem a presença africana em nossa cultura, mas sem negar o conflito presente nas relações sociais. Isso pode ser identificado em canções como “Canto das Três Raças”, “Nação”, “Jogo de Angola” e “Tributo aos Orixás”.
Clara nasceu católica, conheceu o espiritismo kardecista, tornou-se umbandista e demonstrou em muitos momentos a ambiguidade típica do povo-de-santo, transitando entre as religiões anteriores. Seu casamento, por exemplo, foi celebrado por um padre. Esse sincretismo religioso tão popular no Brasil e que fez parte da experiência religiosa da cantora aparece explicitamente na música “Guerreira”.
"Conto de areia" de Romildo e Toninho. Um ponto de umbanda estilizado.
Sua morte gerou uma série de especulações, inclusive religiosas. O fato é que a morte de Clara Nunes no auge da carreira foi o suficiente para torná-la a “deusa dos orixás”. Como sua imagem era fortemente ligada à religião, muitos fãs e amigos realizaram diversos rituais e tratamentos alternativos buscando sua recuperação. Até hoje existem casos de pessoas que afirmam terem sido curadas por Clara Nunes! É impressionante perceber como é importante essa presença da experiência religiosa de Clara Nunes na vida de seus fãs e admiradores. Nas comunidades de Clara Nunes no Orkut, por exemplo, utilizam saudações típicas e esclarecimentos sobre o que é a umbanda e o candomblé.
Pra mim, Clara tinha uma beleza incrível e isso pode ser conferida nos inúmeros clipes que existem no youtube. Uma beleza exótica, brejeira, autêntica, natural e simples. Sua voz é firme e quente e sempre tenho a impressão de que ela está saboreando as palavras. Nossa língua portuguesa fica ainda mais bonita cantada por Clara Nunes. A “Tal Mineira” é a Rainha do Samba e melhor que ela ainda está para nascer!
Salve Clara Guerreira!
"Canto das Três Raças" de Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte.
Se estivesse vivo, ontem o maior ídolo esportivo brasileiro ao longo da história completaria 52 anos de idade. Por mais que eu não ache graça alguma no automobilismo (aqui expliquei os motivos http://psicoisinhas.blogspot.com.br/2011/10/f1-perdeu-graca.html) é inegável a importância e a força do mito Ayrton Senna na história do automobilismo e na sociedade brasileira.
Senna nasceu numa família paulistana de classe média alta, sendo filho de um empresário. Como ele mesmo disse em diversas ocasiões, Senna era um homem privilegiado, sempre teve uma vida muito boa. Desde muito jovem, incentivado por seu pai, desenvolveu enorme paixão pela velocidade. Começou a competir nas provas de kart e estreou na Fórmula 1 no ano de 1984. Passou pelas equipes Toleman e Lotus, antes de ingressar na união de sucesso com a McLaren, sendo campeão em 1988, 1990 e 1991.
Mas o meu objetivo com este post é entender melhor essa tal idolatria em torno de Ayrton Senna e para isso é preciso analisar alguns pontos separadamente. Em primeiro lugar, Senna não seria um dos principais ídolos do esporte mundial se não vencesse, se não obtivesse resultados, ou seja, se não fosse bom. Portanto, Senna possuía o pré-requisito básico para ser um aspirante a ídolo: talento.
A partir disso a mídia escolheu Senna como ídolo graças a características como carisma, simpatia e talento. Através de um trabalho de marketing, sua imagem foi incansavelmente repetida até a acomodação no imaginário popular.
Antes de prosseguir, vale destacar uma coincidência ligada ao futebol da época do Senna. As pessoas da minha faixa etária provavelmente desconhecem o período de “vacas magras” do nosso futebol, já que desde 1994 o Brasil tornou-se muito bem sucedido no esporte. Porém, muitos anos antes, a seleção brasileira de futebol havia vencido sua última Copa do Mundo em 1970, ficando num hiato de 24 anos, além de completar em 1989, quatro décadas sem ganhar uma Copa América. Nesta época a Fórmula 1 começou a adquirir força no Brasil, graças ao bicampeão Emerson Fittipaldi, ao tricampeão Nelson Piquet e principalmente com o também tricampeão Ayrton Senna. Era nas pistas que o país se sentia representado em todo o mundo.
Os mitos sempre cumprem uma função social, uma vez que projetam em suas imagens os sonhos e as aspirações coletivas. Deste modo, o “mito Ayrton Senna” é constituído por dois tipos de “Senna” e que convivem no imaginário popular: o semideus das pistas, veloz, selvagem, inigualável e o “rei da chuva”; e o cidadão carismático, bom-moço, tímido e simples. Sua imagem estava vinculada a ideia de um corajoso guerreiro e de um cidadão exemplar.
Neste processo de criação de ídolos é importante compreender que a indústria cultural visa o consumo. Para que o sujeito se transforme em consumidor é preciso que ocorra um enfraquecimento do poder de reflexão sobre sua própria decisão. Porém, nós, os consumidores, não somos apenas componentes de um mercado de produtos, mas também de um mercado de sentimentos, pois os indivíduos na organização capitalista são ao mesmo tempo objetos desejantes e de desejo, sendo que as celebridades são as mercadorias que os consumidores desejam possuir, porém numa relação que vai além de uma simples admiração e que ganha contornos de um desejo sexual.
Na nossa sociedade de consumo as imagens são pensadas na intenção de fazer o maior impacto possível no espectador ou na plateia tornando-se fetiches. No caso de Senna, sua imagem nos é apresentada de maneira extremamente sedutora, emotiva e representativa, pois o maior orgulho brasileiro estava no franzino piloto agitando a bandeira brasileira sempre após um triunfo e sendo acompanhado pelo “Hino da Vitória” entoado repetidamente pela Rede Globo, além do discurso bastante carregado de uma verbalização entusiasta de Galvão Bueno, que por muitas vezes lembrava um torcedor desequilibrado. Quem não se lembra dos gritos insuportáveis do Galvão Bueno falando: “Ayyyyyyrton Senna do Brasil!!!”?
Dito isto, outra distinção importante é que o status de celebridade implica uma divisão entre um eu privado e um eu público, sendo o primeiro a sua identidade verdadeira e o segundo o seu rosto público, ou seja, uma fachada que desperte interesse nas pessoas.O eu público de Ayrton Senna descrevia um homem “vencedor, patriota e simpático”, tornando-se um modelo para uma sociedade.
Mas um ingrediente de grande impacto para esta formação do “mito Ayrton Senna”, foi a Rede Globo. A “Vênus Platinada” era e ainda é a detentora dos direitos de transmissão da F1. Além do mais, Senna possuía uma amizade forte com Galvão Bueno. Desta maneira temos uma fórmula quase perfeita de um ídolo: Rede Globo + carisma + talento + vitórias = quase divindade.
Mas como sempre digo, por trás de todo bom-mocismo exagerado sempre existe muita enganação. Senna possuía muitas destas características, porém algumas delas são retratadas de maneira bem distante da realidade. É difícil ver simplicidade num homem que esbanjava sua riqueza expondo mansões, lanchas, aeromodelos, pista de kart em fazenda particular e outros tipos de ostentações. Seu bom-mocismo também é discutível já que em 1990 jogou seu carro pra cima do Alain Prost, utilizando-se da mesma manobra utilizada pelo francês um ano antes, além do relacionamento ruim com os antagonistas da pista (depois dizem que só o Schumacher é o Dick Vigarista...). Tímido, aparentemente, ele não era já que sua vida pessoal sempre foi bastante explorada e algumas de suas namoradas tornaram-se famosas.
Mas sua mitificação foi completa graças a sua morte precoce. Senna morreu ainda jovem, aos 34 anos e ainda no auge de sua carreira. Ayrton Senna foi o primeiro campeão a morrer durante uma transmissão televisionada de um GP. O mundo inteiro acompanhou seu violento acidente. Sua perda encaixa-se perfeitamente na noção de “bela morte”. Para os gregos um guerreiro que morresse no auge de sua juventude e em uma batalha, após superar vários obstáculos, teria conquistado uma morte gloriosa. Sendo assim, a morte de Senna complementou e divinizou suas glórias nas pistas. A imagem que ficou de Ayrton foi de um herói, um mártir, não sendo apenas um simples ídolo e sim um mito. Um ponto que vale destacar é que ninguém viu e nem verá o seu período de decadência. Com toda certeza, se Senna estivesse vivo sua idolatria e endeusamento não seriam a mesma coisa, já que todo mundo acompanharia seu declínio.
No Brasil, muitas pessoas custaram a acreditar na notícia de sua morte, provocando o chamado “efeito São Tomé”. Para ter um exemplo, lembro que na época eu tinha sete anos de idade e meu pai me deu a notícia de sua morte. Realmente, para uma criança, a morte de Senna era algo absurdo e impensável. Não acreditei de início. Contudo, de uma forma diferente, a população brasileira queria ter a certeza de sua morte acompanhando, como se fosse uma procissão, o cortejo de seu funeral.
Entretanto, não somente seus fãs o idealizavam, mas também a nação brasileira, tanto que muitas pessoas o consideravam como alguém próximo, como um familiar. Sendo Senna um familiar ou um ente querido, a reação à sua morte é a de um luto. Quando os milhões de brasileiros choraram por Ayrton, na verdade choraram por suas perdas, por seus fracassos, e principalmente por terem perdido o seu orgulho de ser brasileiro.
Como não sou fã de automobilismo, nunca tive uma grande admiração por Ayrton Senna. Pra falar a verdade nem o considero o maior piloto, como afirmam alguns fãs, mas também não o considero um engodo, como avaliam seus antipatizantes. Simplesmente nunca me identifiquei com sua imagem ou com suas frases tão repetidamente reproduzidas em redes sociais. Infelizmente, a fatalidade se encarregou de imortalizar a sua figura.
Antes de começar a falar sobre a história do samba, quero agradecer a oportunidade cedida por minha nobre amiga Amanda Borba.
O samba como muitos sabem, vem da origem do sincretismo africano, trazidos dos navios negreiros para o comércio de escravos ao nosso país em meados do século XVI. Através do batuque do candomblé nas senzalas, ou nos porões dos próprios navios negreiros, os negros saudavam seus orixás, clamavam a saudade da sua Terra Mãe ou Terra da Vida (Ilu Aye) e sonhavam por uma vida melhor, já que um dos motivos maiores para a escravização dos negros foi a ganância.
De lá pra cá, o samba evoluiu. Ganhou novos estilos e gêneros como o samba de enredo. Um samba acelerado que tem como principal objetivo exaltar em seus temas a riqueza da cultura universal mostrando na avenida, a apresentação coreografada do teatro ambulante por agremiações chamadas de ESCOLAS DE SAMBA.
GRSCES Vai – Vai. A música Venceu. Enredo campeão do carnaval Paulistano de 2011. Homenagem ao maestro João Carlos Martins
O samba de breque, outro ritmo caracterizado por frases faladas do intérprete, com graça e malandragem em seu estilo. Um dos principais nomes do samba de breque é Sinhô (José Barbosa da Silva) um dos pioneiros.
Onde Canta o Sabiá - Direção Antonio De Bonis. Direção musical Humberto Araújo cena com Ana Velloso/Maria Clara Wermelinger/Andrea Dantas/Duze Naccarati/Vera Novello musica Cansei (de Sinhô) - Teatro Ziembinski Ano de 2004
Samba de breque - Acertei no milhar. Música de Wilson Batista em parceria com Geraldo Pereira. Cantado por Moreira da Silva.
O estilo samba de breque existe até hoje, mas foi mais difundido por grandes cantores e compositores como Moreira da Silva, Germano Mathias, Dicró, Geraldo Pereira, Haroldo Lobo, Wilson Batista e outros mais...
O samba choro, ritmo caracterizado pela mistura do chorinho e do samba propriamente dito. Dá ao gênero um toque leve e de preciosidade.
Amélia Rabello - Ruas que sonhei. Composição: Paulinho da Viola
O samba de terreiro, ao contrário da alusão do batuque ao candomblé, o samba de terreiro é o ritmo caracterizado por sambas curtos de primeira e segunda parte de refrão continuado e versos repetitivos.
Quinteto em Branco e Preto – Não é só Garoa
Além desses citados, o samba também possui outros ritmos como samba de partido alto, semelhante ao repente nordestino utilizando o improviso nas rimas; o samba-roque com dança semelhante ao twist dos anos 50 e 60, porém um pouco mais cadenciado e coreografia rodopiada entre os casais; o samba de lamento que são canções negreiras entoando saudade e liberdade, entre outros gêneros.
Com o ritmo e dança bem marcado, hoje o samba é considerado uma das manifestações culturais brasileiras, mas ao contrário do que se pensa, o samba não teve início no estado do Rio de Janeiro conhecido como capital mundial do samba, mas sim, no estado da Bahia mais precisamente em Santo Amaro da Purificação a 100 km da capital Salvador no Recôncavo Baiano. Nos terreiros do candomblé e nas rodas de capoeira, os negros começaram suas primeiras melodias e criaram o samba de roda no século XIX. Hoje, o samba de roda é considerado patrimônio cultural da humanidade.
Em 1917, surge o primeiro samba gravado cantado por João da Bahia (Pelo Telefone) e registrado anteriormente em 1916 na Biblioteca Nacional por Ernesto Joaquim Maria dos Santos, (Donga) irmão do mestre Alfredo da Rocha Viana Filho (Pixiguinha) e parceria com Mauro de Almeida. Após essa gravação, o samba passou a se popularizar e fixou-se como gênero musical.
REPRODUÇÃO
Selo Odeon do primeiro Samba gravado – Pelo Telefone de Donga e Mauro de Almeida – 1917.
Pelo Telefone: Primeiro samba gravado em 1917 por João da Bahia. Música composta na casa de Tia Ciata cozinheira e mãe de Santo.
Por mero preconceito e racismo aos negros, o samba foi reprimido e discriminado em seu início. Atribuído à cultura africana e suas origens religiosas o samba era considerado pela elite brasileira da época como música de vagabundos, marginais e pobres sem classe. A polícia reprimia aqueles que encontravam na rua qualquer um que segurasse um simples violão. O violão não era considerado um instrumento digno de um cidadão de bem na época devido ao samba. Hoje, o samba é a marca de nosso país, conhecido por todo o mundo sendo até tema de Walt Disney em seus desenhos animados. Também, não existe outro ritmo que exalta tão bem a cultura de nosso país assim também não há um samba que deprecie ou desmotive o nosso Brasil.
Aquarela Brasileira. Samba de enredo compostos por Silas de Oliveira para o carnaval de 1964 para a escola de samba Império Serrano cantado aqui por Martinho da Vila. Uma homenagem ao grande compositor Ary Barroso que não pode ver ao desfile de sua homenagem. Veio a falecer 5 horas antes do desfile da Império.
Desenho de Walt Disney de 1942 – Aquarela do Brasil – Música de Ary Barroso.
Hoje também conhecido como “pagode” o ritmo mais tocado em rádio, atualmente, e em maioria formados por grupos de “pagode”, é bem provável que muitos não saibam que a palavra pagode significa uma reunião de sambistas em uma roda de samba. Samba, por sua vez, é um gênero musical dançante de raízes africanas.
“Samba, agoniza mais não morre...” Passa por desafios mais nunca desiste como um bom brasileiro que é ou foge à luta. Se estiver triste, o samba alegra. Se estiver desiludido, o samba o faz reviver. Se estiver sozinho, o samba faz companhia. Para todo o bem, a culpa é do samba.
Este post será totalmente diferente dos textos que costumo escrever para o blog. Senti a necessidade de falar sobre isso. Há uma semana perdi uma grande companheira: minha cachorrinha. Foi um dos dias mais tristes de toda a minha vida. Chorei demais.
Muita gente acha idiota chorar por cachorro. Eu nunca achei isso. Sempre ouvi relatos de crianças que adoecem ou de adultos que entram em depressão por conta da morte de um animal. Os animais merecem respeito. Quem tem um animal de estimação sabe como eles nos respeitam. Nos dão um retorno da forma mais linda e incondicional de amor, onde basta amar para ser amado.
Na infância, um dos meus sonhos era ter um animalzinho de estimação. Com seis anos, meus pais pegaram um gatinho. Lembro que o chamava de Chaves (em homenagem ao meu programa de televisão favorito). Mas como eu tinha bronquite e era alérgica a pêlo, meu pai sumiu com o gato. Eu lembro que fiquei muito triste. Minha mãe sempre conta que eu fiquei sentada no sofá, chorando baixinho e com as lágrimas escorrendo no rosto. Mas confesso que não consigo lembrar dessa cena.
Um tempo depois, tivemos uma tartaruga. Alguém falou pra minha mãe que tartaruga ajudava a curar bronquite. Ela acreditou e foi comprar uma tartaruguinha na feira na intenção de me curar. O jabuti era uma gracinha, sempre se escondia quando eu e minha irmã pegávamos nela. Porém, quando a minha mãe aparecia ela saía do casco e abria a boquinha querendo comer alface e banana. Entretanto, a tartaruga durou pouco tempo com a gente. Minha irmã, que tinha seis anos na época, encontrou a tartaruga com sangue e cheia de formiga (já estava morta). Na sua inocência infantil, mergulhou a tartaruga num balde de água, pensando que assim limparia a tartaruga. O problema é que no balde, além de água, tinha cândida. Não chorei pela tartaruga, fiquei chateada, mas minha irmã ficou arrasada.
Passou-se cinco anos e eu estava curada da bronquite, havia mudado de escola e iria mudar de residência novamente. No dia 28 de fevereiro de 1999, minha irmã chegou em casa com um filhotinho de cachorro, com três semanas de vida, sem dentes e mal conseguia ficar de pé. Ela havia feito um apelo emocional à minha mãe que acabou permitindo a presença de um cachorrinho. Meu pai não queria ter animais em casa. Dizia que "cachorro dava muito trabalho". Minha mãe ficou com dúvidas no início, mas gostou da ideia e até escolheu o nome da filhotinha. Se chamaria Julie.
Eu tinha 12 anos de idade e minha irmã 11 anos. O tempo passou e a Julie foi crescendo, assim como seus dentinhos. Destruía tudo o que via pela frente e comia tudo também. Cavava a terra de vasos de planta e devorava sapatos. Era um terremoto!
Os passeios na rua eram animadíssimos! Praticamente nos carregava com a coleira. Certa vez, me enrolou com a corrente e me derrubou. Ainda bem que não tinha ninguém na rua... rsrsrs
Ela adorava brincar de esconde-esconde com a minha irmã. Com as patinhas abria todas as portas. Quando a minha mãe voltava pra casa, minha nossa! A alegria não cabia no peito daquela cadelinha! Saía correndo, pulava no sofá e se esparramava na cama (mesmo quando a gente brigava com ela por causa disso). Ela também gostava de acompanhar meu pai nas refeições. Esperta que só, sabia que ele sempre iria compartilhar algo com ela.
Segundo minha família, eu acostumei mal a Julie (também conhecida carinhosa como Juju, Bubu, Julinha e Nenê). Nunca deixei ela dormir no quintal e por isso deitava no sofá e na cama (na foto ela estava deitada em cima da cama... rsrsrs). Também lhe apresentei pela primeira vez o pão. Adorava comer um pãozinho de manhã... rsrsrs
Mas a partir dos oito anos de idade, Julie começou a apresentar problemas de saúde. Teve piometra (infecção no útero), ataque alérgico e no ano passado curou-se de uma doença hepática. Infelizmente, na sua última semana de vida desenvolveu rapidademente a leptospirose. À meia-noite e meia do dia 03 de fevereiro (quatro dias antes de seu aniversário, 07 de fevereiro) ela faleceu. Vendo-a em sua agonia foi chocante demais. Me senti impotente e inútil. Só em lembrar dos olhinhos dela pedindo socorro começo a chorar. Eu e minha irmã choramos muito. Minha mãe ficou calada e extremamente triste. Até meu pai, que nunca vi chorar, ficou muito sentido.
Mas é isso. A nossa Juju faz muita falta. Muita mesmo. Quando chega a velhice, todos da família já esperam pela morte do animal de estimação. Julie iria completar 13 anos, ou seja, metade da minha vida passei ao seu lado. Por isso a dor é muito grande. Mas o que nos entristece mais é saber que ela não fará parte da história de nossa casa própria.
Depois desta experiência não penso em ter outro animal de estimação. Sei lá, a gente cria um amor tão grande, mas o sofrimento com sua morte é igualmente gigantesco.
Confesso que depois de sua morte passei a ter mais contato com a visão espírita a respeito dos animais. Isso me confortou demais.
Enfim, deixo abaixo dois videos com duas músicas que me lembram ela. E mais uma vez obrigada por tudo, Julie! Adeus, amigona!
"Eu cheguei em frente ao portão. Meu cachorro me sorriu latindo."
"July! July! July! Oh me, oh me, oh me, oh my". Era esse trecho da canção do Billy Paul que meu vizinho sempre cantava quando via a Julie.
“José e Antônio resolveram criar um clube e escolheram as cores e o nome da nova agremiação. E assim nasceu...” Peraí, pára tudo! Não, definitivamente a história do meu amado Tricolor Paulista não é tão simples como a da maioria dos clubes brasileiros. Sua narrativa é repleta de renascimentos, lendas e curiosidades.
“Está fundado nesta capital mais um grande clube de futebol”.
Assim, no dia 25 de janeiro de 1930, o jornal Estadão anunciou a criação do primeiro São Paulo Futebol Clube. Sim caros leitores, o primeiro.
Aliás, antes de qualquer coisa, é interessante notar que todos os grandes clubes da capital paulista nasceram para representar algum grupo da sociedade paulistana no início do século XX. O Corinthians apareceu para representar os trabalhadores e imigrantes pobres da região do Bom Retiro; o Palmeiras (que no princípio era Palestra Itália) surgiu para representar a colônia italiana; a Portuguesa de Desportos representava a colônia portuguesa; e o São Paulo, devido os seus antepassados, representava a elite paulistana “quatrocentona” (neologismo para nomear legatários legítimos ou supostos dos primeiros paulistas, ou seja, os bandeirantes ou mandachuvas coloniais). Atualmente, essas representações não fazem mais nenhum sentido, já que a sociedade paulistana mudou completamente.
"Futebol no Patropi, sou mais é o Tricolor do Morumbi". Só o nariz do Juca Chaves nos salvará!
Bem, o Tricolor Paulista surgiu da fusão de dois times da época amadora do futebol brasileiro: o Club Athlético Paulistano e a Associação Athlética das Palmeiras. No início, o futebol no Brasil era um esporte elitista. O Paulistano, por exemplo, foi fundado por um grupo de jovens da oligarquia paulistana em 1900. Dois anos depois, em 1902, a A.A. das Palmeiras foi fundada pela elite tradicional formada por graduandos, bacharéis e doutores.
Para título de curiosidade, o alvirrubro Paulistano foi simplesmente o maior clube da era amadora, conquistando 11 títulos paulistas, incluindo um tetra campeonato (único time paulista a conquistar esta façanha). Além disso, o primeiro grande jogador do futebol brasileiro e o mais importante do amadorismo foi Arthur Friedenreich. Arthur era um mulato de olhos verdes e jogou entre 1909 e 1935. O racismo nos esportes só começaria a diminuir na década de 1930. Todavia, Friedenreich foi uma exceção por causa do sobrenome e da origem burguesa, herdados do pai, comerciante alemão.
No entanto, depois de muitos problemas, o departamento de futebol do Paulistano foi fechado e a A.A. das Palmeiras só tinha dívidas. Juntando a fome e a vontade de comer, jogadores e diretores da A.A. das Palmeiras se ligaram aos persistentes do Paulistano, antigo rival, com a intenção de criar um novo clube. De tal modo nasceu o São Paulo Futebol Clube. A assembleia de oficialização da fundação aconteceu no dia 27 de janeiro de 1930.
São Paulo Futebol Clube da Floresta. Time campeão de 1931.
O nome foi escolhido para homenagear o próprio estado e as cores eram uma combinação do vermelho e branco do Paulistano e do preto e branco da A.A. das Palmeiras, além de reproduzir as três cores da bandeira paulista.
Este primeiro SPFC é ainda conhecido como São Paulo da Floresta, pois se localizava na Chácara da Floresta, às margens do rio Tietê. Entre 1930 e 1935 o SPFC da Floresta conquistou um título paulista e quatro vice-campeonatos. Neste período, Arthur Friedenreich, o maior jogador brasileiro até então, marcou 68 gols com a camisa tricolor.
Mas graças às dívidas adquiridas por causa da nova sede social, o Trocadero, e de outras despesas, o SPFC da Floresta deixou de existir após a fusão com o Clube Regatas Tietê.
Mas a chama ainda estava acesa e como dizem os gaúchos “não está morto quem peleia”. Depois de muita mobilização, em 16 de dezembro de 1935 aconteceu o renascimento do maior clube deste país. Da mesma forma como o pássaro mitológico que se renova no fogo e que é símbolo de renascimento e da ressurreição, o SPFC surge como a fênix do futebol paulista e brasileiro. Agora o "time da elite" não existe mais (embora este mito ainda persista). Quando o clube foi refundado em 1935, era um time extremamente pobre e a torcida, apesar de pequena, também era composta por trabalhadores. Portanto, o clube ressurgiu de forma humilde e aos trancos e barrancos foi tentando se firmar entre os maiores do esporte bretão.
Após o renascimento, sua primeira partida oficial aconteceu no dia 25 de janeiro de 1936 e a autorização aconteceu num receituário médico, entregue pelo secretário da educação ao tenente mineiro Porphyrio da Paz. Por este motivo o São Paulo, mesmo recriado em 16 de dezembro, celebra seu aniversário em 25 de janeiro.
Durante os primeiros anos, muitas fusões de outros clubes com o novo SPFC aconteceram. O clube caçula caminhava com dificuldade e os rivais mais velhos aproveitavam a oportunidade para tirar o sarro chamando os são paulinos de “pobretões metidos a bestas” e de “time pequeno”. Em 1937, o cronista esportivo Thomaz Mazzoni criou a alcunha mais simbólica e significativa da história do São Paulo:
“Recentemente surgiu o São Paulo FC Júnior, com as mesmas pretensões do antigo. Se o novo São Paulo veio ao mundo da bola sem os haveres, fama e prestígio dos seus antepassados trouxe a maior das riquezas: a fé no seu destino, o amor ao seu hoje. Somente a fé poderia levar o atual Tricolor a nascer como um clube varzeano qualquer e tornar-se logo uma agremiação no caminho reto do progresso do futebol superior. O Clube da Fé, como merece ser chamado o atual São Paulo FC, está se encarregando de ser grande e campeão.”
Daí pra frente muita coisa aconteceu. O filho caçula dos grandes times do Brasil firmou-se. Os são paulinos mais antigos se lembrarão do primeiro grande esquadrão tricolor da década de 1940 e de nomes que soavam como poesia: Rui, Bauer, Noronha, Sastre, Leônidas e Teixeirinha.
REPRODUÇÃO Leônidas da Silva, o "diamante negro" (o chocalate da Lacta foi criado em homenagem a Leônidas). Ele foi o primeiro grande jogador brasileiro da Era Profissional, o primeiro negro a assumir a condição de astro de futebol e o divisor de águas da história do SPFC. Depois de Leônidas, o São Paulo nunca mais foi o mesmo. De fracasso virou sucesso.
Outros citarão Canhoteiro, o mago dos dribles impossíveis e que serviu de inspiração para muitos cantores brasileiros, como Zeca Baleiro, Fagner e até mesmo Chico Buarque (que é tricolor carioca, mas que já declarou admiração e simpatia pelo tricolor paulista, graças a Canhoteiro). Outro grande jogador da década de 1950 foi o mestre Zizinho, o principal jogador brasileiro antes da Era Pelé no Santos.
"O Futebol", Chico Buarque. Para Mané, Didi, Pagão, Pelé e Canhoteiro.
"Canhoteiro", Zeca Baleiro e Fágner. Uma lenda esquecida até mesmo no museu do São Paulo Futebol Clube.
Mas nem sempre “ser são paulino é uma grande moleza” como diria o cabeçudo do Milton Neves. Os tricolores amargaram anos difíceis em seu início e um jejum de 13 anos entre 1957 e 1970. O jejum tricolor coincidiu com a construção do Morumbi, com o jejum corintiano e com a fase dourada do Santos de Pelé e da Academia alviverde. Nesta época existia uma piadinha que dizia o seguinte: "Quem torce para o Santos é ouro. Quem torce para o Palmeiras é prata. Quem torce para o São Paulo é cachorro vira-lata". E como todo bom vira-lata, o Tricolor durante muito tempo foi considerado um time simpático. Segundo relatos de parentes, até mesmo corintianos gostavam do SPFC. Hoje, depois de tantos títulos, a história mudou.
REPRODUÇÃO Nem só de futebol vive o homem são paulino. Éder Jofre é considerado por muitos conhecedores do boxe como o maior pugilista brasileiro. Ele lutava sob as cores do São Paulo e esta foto é do dia em que ele foi campeão mundial em 1960.
REPRODUÇÃO No escudo do São Paulo as duas estrelas douradas foram adotadas em sua homenagem. Elas se referem aos recordes mundiais batidos por Adhemar Ferreira da Silva nas Olimpíadas de Helsinque em 1952 e nos Jogos Panamericanos da Cidade do México em 1955.
Continuando a saga tricolor, as vacas gordas voltaram na década de 1970, graças a craques como Gerson, Toninho Guerreiro e os uruguaios Pablo Forlán e Pedro Rocha. Inclusive, Pedro Rocha é considerado por muitos são paulinos o maior jogador da história do SPFC. Sempre escutei meu pai falar da classe, da raça e da visão de jogo deste oriental. Um monstro sagrado!
Por falar nisso, o SPFC é o clube paulista com mais tradição em jogadores uruguaios e argentinos. Antonio Sastre foi o primeiro argentino que fez sucesso em Terra Brasilis. El Maestro era dos principais nomes da legendária seleção argentina do anos 40. Em 1953, o Tricolor foi campeão paulista tendo três jogadores argentinos no elenco principal, como o goleiro José Poy (um dos arqueiros mais queridos do clube), Gustavo Albella (Che Guevara vibrou com seus gols em Alta Gracia, vilarejo próximo de Córdoba) e Juan José Negri, além do técnico argentino Jim Lopes (pseudônimo de Alejandro Galán). Do lado uruguaio, os destaques são para o “Caveira Simpática” Pablo Forlán, “El Verdugo” Pedro Rocha, o implacável Darío Pereyra e o monstruoso Diego Lugano.
Nos anos 80, o Tricolor formou grandes equipes e foi disparado o melhor time paulista da década. Entretanto, o destaque vai para os “Menudos do Morumbi” composto por Pita, Silas, Sidney, Müller e Careca.
Guarani 3 x 3 São Paulo. Campeonato Brasileiro de 1986. A melhor final de todos os tempos em Brasileirões. Dois timaços, muitos gols, prorrogação e emoção. Faltando dois minutos para acabar a prorrogação e o jogo, Careca marca um gol suado, sofrido e catártico, acabando com o sonho bugrino do título e acendendo a esperança tricolor. Este é o gol mais emocionante da história são paulina.
Desde que me conheço por gente sou são paulina. Na verdade, sou são-paulina de outras encarnações. E, pela minha idade, sou cria da Era Telê Santana. A equipe do Telê foi simplesmente um dos maiores esquadrões da história do futebol brasileiro e mundial. No Brasil, a hegemonia santista foi a mais longa, dominando praticamente toda a década de 1960. O São Paulo do Telê teve sua hegemonia num período mais curto, entre 1991 e 1994, porém muito mais bem sucedido que o Santos de Pelé no que diz respeito a títulos internacionais oficiais. Graças a Telê, o São Paulo conquistou respeito internacional e tornou-se a terceira maior torcida do país (algo inimaginável, já que a torcida tricolor na década de 80 era a sétima maior do país).
O time do Telê Santana era rápido, com um ótimo toque de bola e jogava sem um centroavante fixo. Foi um período que até os reservas ganhavam títulos, o chamado “Expressinho”. Os grandes nomes desta Era foram: Zetti, Müller, Palhinha, Pintado e Raí, o “Terror do Morumbi”.
REPRODUÇÃO Irmão de Sócrates, Raí é o maior nome da Era Telê Santana e um dos maiores ídolos do clube.
O Tricolor que começou engatinhando no futebol paulista, hoje é facilmente um dos maiores clubes da história do futebol nacional, sem contar o fato de estar longe de ser um clube centenário.
Quem lê este blog e as coisas que escrevo sabe que sou são paulina roxa. Nenhuma novidade. Também devem imaginar como estou contente escrevendo este post sobre a história do meu amado Tricolor. Gostaria de dissertar um pouco mais, porém um post apenas não daria conta. São muitas histórias. Já vivenciei diversas emoções com este time, que assim como um bom filme, sabe fazer seu torcedor rir e chorar. O São Paulo Futebol Clube é o meu Cinema Paradiso. Sensível, habilidoso, romântico, grande, folclórico e requintado.
Salve o Tricolor Paulista! O mais amado clube brasileiro!
Hino Oficial do São Paulo Futebol Clube, escrita pelo tenente e farmacêutico Porphyrio da Paz.